Mudaram os tempos, mas não mudou a história,
mudaram os discursos, maquilharam a escória.
Disseram que o futuro estava à nossa espera,
mas o futuro ficou caro e o ordenado na mesma miséria.
Abro a carteira, faço contas, volto a fechar,
o mês ainda agora começou, já estou a apertar.
O depósito cheio? Isso é luxo de patrão,
cada litro que abasteço é mais um corte no pão.
A gasolina sobe, o salário anda a pé,
trabalhar para pagar o direito de ter fé.
Fé que chegue ao fim do mês, que não falte o jantar,
que a luz não seja cortada, que haja onde morar.
Chamam-lhe crescimento, chamam-lhe evolução,
mas eu vejo gente a afundar com um contrato na mão.
Produzimos riqueza, mas quem fica com o quê?
Há quem conte os milhões, há quem conte o que não vê.
E dizem «é o mercado», como quem diz «é normal»,
como se a injustiça fosse uma lei natural.
Se a vida é uma corrida, largámos sem partida,
uns compram o futuro, outros hipotecam a vida.
Portugal à venda, quem dá mais pelo país?
Quem compra uma casa, quem ainda é feliz?
Quem trabalha até cair, quem nasceu para mandar?
Quem tem tudo garantido e ainda se queixa de pagar?
Portugal à venda, promoção na ilusão,
há progresso nos cartazes, há miséria no balcão.
E enquanto eles discutem quem merece governar,
há um povo a fazer contas sem saber como as pagar.
Quero uma casa, não um palácio à beira-mar,
só quatro paredes onde possa descansar.
Mas pedem-me uma fortuna por um teto de cimento,
e chamam investimento ao meu desalojamento.
O jovem faz as malas, emigra por obrigação,
leva um curso, leva sonhos, deixa os pais e a geração.
Quem fica junta salários, quem parte junta saudade,
e os prédios ficam vazios à espera da rentabilidade.
A casa virou negócio, a cidade virou montra,
quem não tem capital não entra, quem tem capital compra.
E o direito à habitação, escrito com convicção,
fica bonito na Constituição, não cabe na prestação.
Dizem «façam pela vida», com ar de superioridade,
como se a pobreza fosse falta de vontade.
Mas não há mérito que vença uma regra viciada,
nem há futuro possível numa renda descontrolada.
Na escola falta tempo, falta gente, falta chão,
sobra papelada, burocracia e avaliação.
Querem números bonitos, resultados para mostrar,
mas formar um ser humano não é só classificar.
O professor está cansado, o aluno está perdido,
o sistema quer respostas, mas não ouve o que é sentido.
Transformam o conhecimento num produto para vender,
e depois ficam espantados quando ninguém quer aprender.
Ensinar não é treinar para obedecer ao patrão,
nem encher uma cabeça sem lhe dar compreensão.
É aprender a duvidar, a pensar, a questionar,
não aceitar qualquer mentira só porque a ouviram gritar.
Agora a máquina responde, escreve e até aconselha,
mas quem ensina a pensar quando a inteligência se espelha?
Se a tecnologia avança e a consciência fica atrás,
temos ferramentas do futuro nas mãos de um povo incapaz?
Não culpo quem as usa, nem condeno a inovação,
questiono quem troca o pensamento pela automatização.
Porque uma escola sem liberdade, sem conflito e sem razão
pode produzir diplomas, mas não forma cidadãos.
Na televisão, escândalos, polémicas e futebol,
mais um dia de distração, mais um debate sem sol.
O povo discute a personagem, o gesto, a provocação,
enquanto a vida real continua fora da emissão.
A mentira veste gravata, a demagogia dá sermão,
promete respostas simples para uma vida em complicação.
Aponta o dedo ao mais fraco, inventa um inimigo,
e há quem confunda um discurso agressivo com abrigo.
Não basta falar mais alto para ter razão,
nem chamar povo à multidão para lhe roubar a decisão.
A liberdade não se vende por um ódio bem contado,
nem se defende um país deixando alguém de lado.
E eu não quero salvadores, nem profetas da verdade,
quero gente que responda, que enfrente a realidade.
Porque o voto não é um cheque, nem a crítica traição,
e um país não é propriedade de quem ocupa o cadeirão.
Quantas contas por pagar até alguém se levantar?
Quantas portas vão fechar até alguém querer mudar?
Quantas gerações perdidas numa promessa eleitoral?
Quantas vezes chamaremos inevitável ao que é desigual?
Não me digas que é assim, que sempre foi assim,
foi assim que construíram esta jaula à volta de mim.
O silêncio dá conforto a quem não quer ser incomodado,
mas o preço da indiferença é um futuro hipotecado.
Portugal à venda, quem dá mais pelo país?
Quem compra uma casa, quem ainda é feliz?
Quem trabalha até cair, quem nasceu para mandar?
Quem tem tudo garantido e ainda se queixa de pagar?
Portugal à venda, mas eu não vendo a voz,
não nasci para ser número, nem mais um entre vós.
Se a verdade incomoda, então deixa incomodar,
porque um povo que ainda pensa não nasceu para se calar.
Não quero um país perfeito, quero um país consciente,
onde o trabalho dê futuro e a dignidade não seja para gente diferente.
Onde a escola ensine a pensar, onde haja casa para viver,
onde ninguém tenha de partir só para conseguir sobreviver.
Isto não é nostalgia, nem saudade do que fui,
é olhar para o que somos e perguntar: quem nos substitui?
Porque o tempo vai passando, mas a pergunta continua:
de que serve conquistar o mundo se perdemos o direito à rua?